segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Eu me experimento inacabada

Eu me experimento inacabada.
Da obra, o rascunho. Do gesto, o que não termina.
Sou como o rio em processo de vir a ser.
A confluência de outras águas e o encontro com filhos de outras nascentes tornam-me outra. O rio é a mistura de pequenos encontros.
Eu sou feita de águas, muitas águas. Também recebo afluentes e com eles me transformo.
O que sai de mim cada vez que amo? O que em mim acontece quando me deparo com a dor que não é minha, mas que pela força do olhar que me fita vem morar em mim? Eu transformo-me em outros? Vivo para saber!
O que do outro recebo leva tempo para ser decifrado. O que sei é que a vida me afecta com o seu poder de vivência. Empurra-me para reacções inusitadas, tão cheias de sentidos ocultos. Cultivo em mim o acúmulo de muitos mundos.Por vezes o cansaço faz-me querer parar. Sensação de que já vivi mais do que meu coração suporta.
Os encontros são muitos; as pessoas também. As chegadas e partidas misturam-se e confundem o coração, é nesta hora que sigo alimentando sonhos de quotidianos estreitos, previsíveis. Mas quando me vejo na perspectiva de selar o passaporte e cancelar as saídas, eis que me aproximo de uma tristeza infértil. O melhor é continuar na esperança de confluências futuras. Viver para sorver os novos rios que virão.
Eu sou inacabada.
Preciso continuar.
Se me for concedido o direito de pausas repositoras, então anuncio já que continuo na vida.
A trama da minha criatividade depende deste contraste, deste inacabado que há em mim.
Um dia sou multidão; no outro sou solidão.
Não quero ser multidão todos os dias.
Num dia experimento o frescor da amizade; no outro a febre que me faz querer ser só.
Eu sou assim.
Sem culpas.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Até breve

Depressa chegou ao fim a primeira etapa da nossa viagem!

Agora há que sair no apeadeiro e restabelecer forças para a próxima partida.
Até lá desejo a todos um óptimo e feliz merecido descanso.

Adorei a vossa companhia e por isso tenho a dizer: I MOCHE YOU...

Sandra

quarta-feira, 17 de junho de 2009

último dia de aulas

Hoje acabaram as aulas de Português mas daqui a dois anos há mais ;)
Não se esqueçam de continuar a alimentar este espaço!

Um beijinho da vossa colega

Muahhh

segunda-feira, 8 de junho de 2009

e se um dia...

e se um dia... talvez fosse tarde demais, para reparar os erros que cometemos...

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Amália Hoje




Este projecto é fantástico e, por esta razão, quis partilhar esta música com uma das minhas turmas favoritas de sempre.
Obrigada queridos alunos.

Não desistam do blogue pois quando nos encontrarmos daqui a dois anos podemos ler e comentar os vossos textos. Prometem? Por favor? :)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Boa Prosa

" Era a terceira vez que aquele substantivo e aquele artigo se encontravam no elevador. Um substantivo masculino, com aspecto plural e alguns anos bem vividos pelas preposições da vida. O artigo, era bem definido, feminino, singular. Era ainda novinha, mas com um maravilhoso predicado nominal. Era ingénua, ilábica, um pouco à tona, um pouco ao contrário dele, que era um sujeito oculto, com todos os vícios de·linguagem, fanático por leituras e filmes ortográficos.O substantivo até gostou daquela situação; os dois, sozinhos, naquele lugar sem ninguém a ver nem ouvir. E sem perder a oportunidade, começou a insinuar-se, a perguntar, a conversar. O artigo feminino deixou as reticências de lado e permitiu-lhe esse pequeno índice. De repente, o elevador pára, só com os dois lá dentro. Óptimo, pensou o substantivo; mais um bom motivo para provocar alguns sinónimos. Pouco tempo depois, já estavam bem entre parênteses, quando o elevador recomeçou a movimentar-se. Só que em vez de descer, sobe e pára exactamente no andar do substantivo. Ele usou de toda a sua flexão verbal, e entrou com ela no seu aposento. Ligou o fonema e ficaram alguns instantes em silêncio, ouvindo uma fonética clássica, suave e relaxante. Prepararam uma sintaxe dupla para ele e um hiato com gelo para ela. Ficaram a conversar, sentados num vocativo, quando ele recomeçou a insinuar-se. Ela foi deixando, ele foi usando o seu forte adjunto adverbial, e rapidamente chegaram a um imperativo. Todos os vocábulos diziam que iriam terminar num transitivo directo. Começaram a aproximar-se, ela tremendo de vocabulário e ele sentindo o seu ditongo crescente. Abraçaram-se, numa pontuação tão minúscula, que nem um período simples, passaria entre os dois. Estavam nessa ênclise quando ela confessou que ainda era vírgula. Ele não perdeu o ritmo e sugeriu-lhe que ela lhe soletrasse no seu apóstrofo. É claro que ela se deixou dele e foram para o comum de dois géneros. Ela, totalmente voz passiva. Ele, completamente voz activa. Entre beijos, carícias, parónimos e substantivos, ele foi avançando cada vez mais. Ficaram uns minutos nessa próclise e ele, com todo o seu predicativo do objecto, tomava a iniciativa. Estavam assim, na posição de primeira e segunda pessoas do singular. Ela era um perfeito agente da passiva, ele todo paroxítono, sentindo o pronome do seu grande travessão forçando aquele hífen ainda singular. Nisto a porta abriu-se repentinamente. Era o verbo auxiliar do edifício. Ele tinha percebido tudo e entrou logo a dar conjunções e adjectivos aos dois, os quais se encolheram gramaticalmente cheios de preposições, locuções e exclamativas. Mas, ao ver aquele corpo jovem, numa acentuação tónica, ou melhor, subtónica, o verbo auxiliar logo diminuiu os seus advérbios e declarou a sua vontade de se tornar particípio na história. Os dois olharam-se e viram que isso era preferível, a uma metáfora por todo o edifício.Que loucura, meu Deus. Aquilo não era nem comparativo. Era um superlativo absoluto. Foi-se aproximando dos dois, com aquela coisa maiúscula, com aquele predicativo do sujeito apontado aos seus objectos. Foi-se chegando cada vez mais perto, comparando o ditongo do substantivo ao seu tritongo e propondo claramente uma mesóclise-a-trois. Só que, as condições eram estas. Enquanto abusava de um ditongo nasal, penetraria no gerúndio do substantivo e culminaria com um complemento verbal no artigo feminino.O substantivo, vendo que poderia transformar-se num artigo indefinido depois dessa situação e pensando no seu infinitivo, resolveu colocar um ponto final na história. Agarrou o verbo auxiliar pelo seu conectivo, atirou-o pela janela e voltou ao seu trema, cada vez mais fiel à língua portuguesa, com o artigo feminino colocado em conjunção coordenativa conclusiva".

Redacção feita por uma aluna de Letras, que obteve a vitória num concurso interno promovido pelo professor da cadeira de Gramática Portuguesa.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Se eu ao menos soubesse o que são as palavras

Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que matéria são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.

Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátárárí vibrante de corneta.

Se eu soubesse o que são, para que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desatino,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.

terça-feira, 31 de março de 2009

Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.

Eça de Queirós, in 'Correspondência'

quarta-feira, 18 de março de 2009

Saudade

Uma carteira de fósforos, com dois fósforos e com uma bonita imagem numa das suas faces, segurada nas mãos de um homem alto que procura acender o seu cigarro, relembrando o tempo fantástico que passou. Do seu bolso direito tira uma écharpe de seda e umas moedas, ela dançava ao sabor do vento deixando o perfume da mulher que a usava ser transportado pelo ar. Este homem sentindo o aroma doce do perfume apertou os seus 61 dinares desejando não ter só este dinheiro para poder voltar para trás em busca da mulher que lhe roubou o coração. A única coisa que tinha era a linda écharpe com o doce perfume e a bonita recordação do tempo que passaram juntos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Amor egoísta

As gotas da chuva misturam-se com as nossas lágrimas, a dor da partida com a alegria do reencontro. Um dia. Não sei se te voltarei a ver, nem sei como seria esse reencontro. Tenho saudade. Saudades das palavras apaixonadas que nunca te disse, das noites longas de amor e dor que nunca aconteceram, mas sobretudo tenho saudades de mim, daquela que era naquela vida. Amo-te, com um amor muito meu, muito egoista e privado, um amor que não partilho com ninguém, nem mesmo contigo. Sou escrava desse amor e sua dona, vivo com ele e para ele. É meu amante, amigo e companheiro. É com ele que partilho os melhores e piores momentos. É ele que me faz sorrir e é ele que me conforta quando choro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Memórias

Ao ligar o carro naquela manhã fria de Fevereiro, Mário hesitava, a franja de um tom acastanhado caia-lhe suavemente sobre a testa, os olhos verdes levemente salpicados de castanho, piscavam aos primeiros raios de luz.

Com os olhos fixos no banco do lado, olhou pensativamente para o êcharpe bordeaux de seda. Pegou-lhe e sentiu o seu perfume, um leve aroma a maçãs verdes. Por baixo do êcharpe um guardanapo com o nome Martine e um nr. de telefone.

"Martine" esse nome que sem resultado tentou afastar do pensamento. Puxou de um cigarro e ao abrir a pequena carteira de fósforos vermelha, olhou para o logotipo "Bar Montenegro". Fora ali que a conhecera.

Acendeu o cigarro, gastando um dos dois últimos fósforos e arrancou.

Enquanto conduzia em direcção ao porto, recordou a cara angélica de Martine que ficara docemente dormindo na cama. Deixara-lhe uma carta, a única que alguma vez escrevera a uma mulher.

Aproximava-se agora do seu destino, a farda militar que ostentava anunciava o inevitável, o ínicio da guerra.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A culpa é do Papel

Papel
papel com saber a fel, ou a mel,
timbrado, manteiga, ou vegetal,
com sabor a sal… ai papel, papel, mortalha ou de jornal
do tamanho de Portugal…
estás tão mal…


Sabes uma coisa que eu descobri? O quê, não me digas que descobriste que a terra é redonda? Ahahah, nada disso, mas já que o referes nunca me tinha apercebido desse facto… a sério, é mesmo redonda?!

Ontem estava eu na casa de banho, a pensar na vida, de papel na mão… e eis que coloco os meus olhos naquele singelo e macio papelinho, e de súbito apercebo-me de tudo o que está mal no mundo…que triste destino têm as coisas suaves, macias e singelas nas mãos de um homem. Sim, até aí tudo bem…mas aonde queres chegar?

O papel é a coisa mais triste que há no mundo, é um objecto desgraçado desde a nascença, muito desgostoso, muito usado e cansado. Mas que conversa é essa?
Ele é a desgraça dos homens. Mas estás a falar do papel dinheiro ou papel, papel?
Ouve lá, sem bilhete não entras no cinema, e o bilhete é feito do quê? De papel! estás a ver? Sim, mas daí até ser a desgraça do homem, ainda vai muito.

Sem papel de condução és multado, e recebes em troca um papel verdinho em forma de multa. Ora, mas não faz sentido o que estás a dizer, então o papel não teve culpa, o culpado foste tu… ora essa.

O PAPEL persegue-me desde que nasci, assim que me tiraram da barriga da minha mãe, mal me deixaram respirar e já a enfermeira estava a pendurar-me num tornozelo, uma etiqueta com os meus dados, ainda assim não deixasse de ser gente, ou me confundissem com outro qualquer desgraçado acabado de nascer, meio zarolho, mais morto que vivo, já andava com um papel atado a um pé.

Quem não se lembra da cédula e do registo, ai o registo, belos anos oitenta, quando eclodiram em força as novelas brasileiras e de repente, deixamos de ser todos Manuel, António, José, Joaquim, Maria, Alzira, Antónia… e começamos a ter nomes maravilhosos como Roberto, Dércio ,Ruben, Marcos, Patrícia, Gabriela, etc.… nomes novos em papel velho…

Parece-me que os únicos anos em que vivemos descansados desse infernal ser, que se mascara de várias cores e formas como o Demo, foram os que passámos até entrar no infantário; até aí éramos basicamente uma máquina devoradora de leite e batatas feitas em puré, sopas e afins, talvez por isso agora custe tanto comer sopa, se tivessem dado bifes a um gajo agora só se comia sopa ahahaha, mas adiante, o papel. Malditas professoras, fazerem uma criancinha cortar papel com uma tesoura maior que ele, até os dedos ficarem vermelhos e inchados, dobrar e colar papel, picotar papel, gatafunhar papel, rasgar, pintar etc.…

O grande dia é mágico, esse sim, quando vamos fazer o Papel de identidade… aí passamos finalmente a sentirmo-nos como parte da sociedade. Sem esse papelinho basicamente não existimos.

Deixa-te dessas ideias parvas, mas és doido ou quê, se não existisse papel, o que seria de nós, faríamos como os antigos, teríamos de escrever em pedras, já imaginaste, andares com a pasta cheia de pedras? Olha as pedras, isso sim era de valor, escrevias nelas e se te chateasses com alguém ainda lhas atiravas à cabeça, então vê lá que até metem pedras escritas em museus, e param a construção de barragens e grandes obras por causa de pedras escritas.

O Homem apoderou-se do mundo através do papel, olha os europeus quando chegaram à América, fizeram um mapa, umas escrituras, no fundo dividiram a terra entre eles, e os índios como não tinham feito a escritura do terreno, nem sabiam ler, ficaram sem nada. Isto para não falar das mentiras que se escreve no papel. As grandes mentiras da humanidade, tudo documentado em papel, essas teses filosóficas, esses grandes poetas e escritores que não fazem mais nada que não seja repetirem-se e copiarem-se mutuamente, esses jornais, esses romances...olha a bíblia, num dos dez mandamentos Deus disse para não matar, mesmo assim o povo de Israel e do Senhor andava sempre a matar-se. Desgraçado papel que aceita tudo, olha o Alcorão!!! Opa fala mas é baixo, não te metas com os árabes… que eles é que tem o papel…

Um gajo vai parar à cadeia por causa de um papel, pode ser uma grande mentira e falsidade, mas se tiver assinado por ti, e documentado em papel, ‘tás lixado, a mentira passa a ser verdade, daí até ser prova é um ápice e ‘tás encravado.

Olha o meu avô, que ficou pobre, por causa de um papel, filho bastardo, o pai morreu sem deixar Papel, o tal testamento… ficou sem nada… que miséria ou então foi o cupim que o comeu, o papel nem consegue resistir a um bicho que mal se vê ao microscópio.

Então e quando estás cinco horas na fila da segurança social, chega a tua vez, e a menina que te atende com uma cara de quem está grávida de dois meses, e te vê como se de um prato de batatas de cozinha te tratasses, lentamente te pergunta: Então e o senhor trouxe o papelinho preenchido? Não. Então tem de ir para o fim da fila ou então voltar amanhã com o papelinho preenchido, e aí um gajo passa-se, filho da mãe, raios parta o papel.

Olha esta merda de crise, tudo por causa do papel, esse maldito papel, dinheiro, sujo e imundo, até consegue comprar a alma, as acções esses negócios obscuros, essa treta da bolsa… tudo gira à volta do papel; espera aí, estou um pouco constipado, por acaso tens um lenço de papel, para limpar o nariz?

Sabes da melhor, quando morreres vou dedicar-te um poema lamechas como tu, escrito em papel, claro, olá e não me posso esquecer de pedir a certidão de óbito, só com esse papel posso provar que morreste, ainda és dado como desaparecido ou assim… nem deixam um gajo morrer descansado, vai o morto a caminho do paraíso, a pensar, se por algum acaso os filhos não se esqueceram de lhe fazer o passaporte para a paz.

O papel é tão miserável, que depois de ter pensado isto tudo ainda lhe limpei o cú, amarrotei-o, viu-o desaparecer sanita abaixo, e nem um ai se ouviu, nem uma reclamação, nem um queixume, uma revolta, nada, nada, nada, olha o que me parece é que andamos demasiado a pensar no papel, e deixamos que nos façam o mesmo que se faz ao papel higiénico, e no final esquecemo-nos de qual é o nosso verdadeiro papel.

Dário

quinta-feira, 5 de março de 2009

Quase

Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.” Luís Fernando Veríssimo

QUASE
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas oportunidades que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Para os erros há perdão; para os fracassos, oportunidade; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não se deve deixar que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Deve-se desconfiar do destino e acreditar mais em nós. Gastar mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Sofia é uma jovem formada que conseguiu o emprego que sempre quis, ser directora e ter um bom salário. Vive apenas com os seus dois cães, Sam e Marley. São rafeiros e nasceram no canil.
Uma noite jantava sozinha num restaurante perto de casa onde todos já a conheciam e a tratavam bem. Enquanto comia a sobremesa, uma deliciosa tarte de natas caseira, o funcionário entregou um guardanapo com um nome e um número de telefone. Pertencia a um jovem alto, moreno, bonito e gostara muito de Sofia. Ela guardou o guardanapo embora tivesse ficado um pouco perplexa. Dois dias depois, numa pequena mercearia, encontrou o tal jovem, envergonhada tentou passar despercebida mas ele, surgindo de repente, apresentou-se e disse-lhe que a achava muito atraente e que gostava de a conhecer. Apesar de desconfiada Sofia respondeu positivamente e aceitou sair com ele num bar perto de casa dela e onde se sentia mais segura.
No dia do encontro Sofia aprontava-se diante do espelho, lembrou-se de uma carteira de pele de marca que era de sua mãe quando era jovem. Decidiu leva-la pois tinha um significado muito especial.
Quando Sofia finalmente chegou ao bar o jovem confessou-lhe que nunca tinha visto uma mulher tão bela quanto ela. A conversa entre os dois durou horas. Quando iam embora ele entregou-lhe um poema arrancado de um livro, livro esse que havia pertencido aos seus pais. Para este jovem o poema retratava Sofia. Os encontros duraram cerca quatro meses, seguindo-se o inicio do namoro e o casamento realizado a beira mar. Sofia sentiu-se a mulher mais feliz do mundo. O jovem, cujo nome é Tiago, proporcionou felicidade e bem-estar a Sofia. Tiveram três meninos lindos.

A aventura do detective

Era um dia radiante, o sol batia na casa abandonada no meio de Nova Iorque. Às ordens do chefe da polícia, o detective aproximou-se da casa como um tubarão que se aproxima da sua presa. Ao aproximar-se da porta de madeira destruída, ele reparou em algo.

Na fechadura da porta estava uma chave com o porta-chaves ainda intacto. O porta-chaves estava mordido e muito gasto. Após alguma observação o Detective concluiu que a chave foi feita há muito tempo atrás, séculos talvez.

O detective entrou na casa misteriosa, que armadilhas lhe esperavam? Segundo a informação que o chefe da polícia lhe tinha dado, um vilão famoso vivia nesta casa. A missão do detective era investigar a casa e tentar encontrar qualquer rasto do vilão.

O detective descobriu uma haste de uns óculos na estante á entrada da casa. A haste sinistra parecia-lhe familiar, mas ele não pensou mais nisso. Provavelmente pertencia ao vilão.

De repente, a porta fecha-se misteriosamente com um estrondo. O detective estava preso. Ouviu-se os passos silenciosos de alguém. O detective estava preso, numa casa abandonada com um vilão famoso. O detective começou a transpirar. A tensão estava a subir. Será que a sua carreira de detective ia terminar aqui? Ele tinha mulher e filhos, e começou a pensar neles. De repente, ele lembrou-se de algo.

Aquela chave; Aquele porta-chaves; Aquela haste de óculos. Pertenciam a alguém que ele conhecia. Mas quem? Uma luz acendeu-se de repente. Um dos cantos da casa estava iluminado. O detective aproximou-se. Era uma figura misteriosa de sapatos castanhos, calças de ganga azuis e camisa verde. A cara não se via, estava coberta pela escuridão. Esta pessoa não lhe era estranha. O detective olhou para a camisa desta pessoa; Esta tinha 7 botões cada um com cada cor do Arco-íris. Finalmente, ele apercebeu-se o que se estava a passar.

Este homem era o chefe da polícia! Este era a sua casa!

De repente todas as luzes da casa acenderam-se. O detective ficou ofuscado. Dezenas de vilões estavam a sua volta. Estou perdido, ele pensou. Nem tinha arma. As figuras estavam a aproximar-se cada vez mais dele. Não havia nada a fazer. O chefe da polícia estendeu a mão. O fim estava perto.

De repente, o detective abre os olhos e notou uma fita gigante no tecto. Os olhos dele encolheram-se e a boca dele abriu-se quando ele apertou a mão do chefe da polícia. A fita dizia: “Feliz Natal, Detective!”

Alice

Era uma tarde chuvosa de Outono. Alice encontrava-se sentada na poltrona da sala defronte da lareira. O seu olhar perdia-se para além do fogo que ardia, como que as labaredas lhe levassem a tempos remotos. A seu lado, encontrava-se uma caixa rectangular de metal com duas simples letras gravadas no tampo. Ao erguer a caixa e cheirando-a, as lágrimas corriam livremente pela sua face. A caixa cheirava ainda ao tabaco aromatizado que António fumava.
Na mesa em frente encontrava-se uma fotografia amarelada, com as pontas já dobradas, gasta, carcomida pelo tempo, com uma imagem de um indivíduo de uniforme escuro.
No seu colo tinha uma carta rasgada, motivo do seu desgosto. Esta carta afigura-se oficial, com poucas linhas escritas em dois parágrafos distintos..
PORQUE CHORAVA ALICE?

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A velha que cozinhava a lua

Seria por volta das três da noite, não conseguia dormir, voltas e mais voltas, estava um calor infernal naquele quarto de uma pensão barata, fazia a camisa colar-se ao meu corpo, por causa do suor. Definitivamente aquela velha história não me saía da cabeça.
De manhã saí bem cedo, paguei ao dono da pensão a última noite de estadia, com os últimos trocados que me restavam; atrás do balcão o mesmo velhote, curvado pelos anos, rosto coberto por rugas, os seus olhos sem alma, sem brilho nem cor, mostravam perfeitamente como mal a vida o tivera tratado; nem uma palavra, quando lhe virava as costas para sair, ouvi aquela voz tremida e rouca a dizer-me para ter cuidado, pois a viagem até à cidade era difícil e perigosa.

Havia oito dias que tinha chegado àquela pequena cidade, estava no meu terceiro mês de viagem, quase nos últimos dias, faltava-me apenas percorrer cerca de dois mil km, até chegar ao aeroporto internacional da cidade mais próxima, e aí apanhar um avião que me levaria de volta a casa. Estava cansado, aqueles três meses sempre de terra em terra, tinham parecido três anos, e não só por me sentir cansado, mas porque percebi que tinha vivido mais nos últimos três meses que em três anos, ou talvez durante toda a minha vida. Enfim ali estava eu, de saída daquela pequena aldeia situada numa encosta muito suave, virada a norte, perto da fronteira com o Estado do Espírito santo, como era linda a aldeia, casinhas brancas, ruas muito estreitinhas, no centro havia uma igreja muito velha, estilo quinhentista, talvez construída pelos primeiros colonos portugueses a chegar a terras de vera cruz. Ao fim do dia conseguia sentir-se a brisa trazida do mar pelo vento norte que se fazia sentir quase todas as tardes. Tinha planeado ficar dois ou três dias, mas já tinham passado oito dias, algo de estranho me prendia aquele sitio, havia uma mística, uma magia no ar, algo difícil de compreender, um sentimento que nos toca, que vem não se sabe de onde, mas que rapidamente nos contagiava e deixava quase num estado de transe, os próprios habitantes da aldeia, viviam o dia-a-dia sem sobressaltos num estado de harmonia quase perfeito.
Ao oitavo dia decidira finalmente abandonar a aldeia, estava na hora de seguir viagem, e para não falar que estava sem dinheiro, daqui para diante teria de sobreviver de caridade ou ganhar alguns trocados a trabalhar fosse no que fosse. Ao partir, tive a sensação de deixar uma parte de mim para trás, que estranho, tinha passado por tantos sítios lindíssimos, nunca nenhum me tivera causado tão grande tristeza em abandonar como aquele. Seguia então pela estrada principal, tinha-me atrasado um pouco e já saíra tarde, teria de me apressar para chegar à próxima cidade antes de o anoitecer, mas com sorte apanhava boleia e não teria de me preocupar. A estrada era estreita, sempre a direito entre árvores alinhadas, lembrando os soldados do exército mais perfeito de um qualquer imperador, estranhamente não havia trânsito, não se ouvia nem o cantar dos pássaros, que estranho no meio de uma floresta. Continuava assim o meu caminho, mas sem conseguir tirar a velha história do pensamento. O velho da pensão tinha-me contado, que aquela aldeia estava enfeitiçada, tinha poderes ocultos, quem por ali passava ou vivia uma vez na aldeia não mais conseguiria sair, deveria mesmo ser uma lenda, eu estivera lá uns dias, e agora estava de saída, a caminho de casa… hahaha… lendas e histórias do arco-da-velha, como podem acreditar nisso…
Caminhava despreocupado, sentia-me diferente, tinha o coração a transbordar de sentimentos, um turbilhão de emoções, e apesar de ainda estar muito longe sentia-me cada vez mais próximo de casa. Num gesto impensado meti a mão no bolso à procura da chave da porta, como quem se prepara para entrar, e qual o espanto quando a senti com as pontas dos dedos… Tinha a certeza que a tinha deixado em casa, não a trouxera caso ainda a perdesse, e de qualquer modo não precisaria dela, quando chegasse a casa teria com certeza alguém à minha espera, e agora ali estava ela na palma da minha mão… não compreendia, talvez por engano a tenha colocado dentro dos bolsos, só poderia ser isso. Às vezes fazemos coisas sem prestar atenção, e depois damos voltas e voltas à cabeça quando somos surpreendidos com situações como esta, não estaria agora por aqui a dar cabo da cabeça, se a tivesse colocado dentro da gaveta das “procuras”, tivera dado esse nome a uma gaveta da minha cómoda que resolvera encher de coisas úteis que precisasse constantemente, assim saberia sempre onde procurá-las, dentro da gaveta das “procuras”. O sol já ia alto no céu e estava uma temperatura bastante agradável, que belo dia que escolhera para partir, naquela zona onde acertar no tempo é como acertar no loto, apanhar um dia sem chuva é obra. Nisto vi um vulto aproximar-se ao fundo da estrada, lentamente a distância foi-se encurtando entre nós e o vulto tornava-se cada vez mais visível, era uma velhinha que caminhava na minha direcção. Ao cruzarmo-nos a senhora parou, e depois de me observar uns momentos cumprimentou-me com um caloroso bom dia, logo de seguida atacou-me com uma pergunta, de onde vinha e para onde estava a ir, depois de lhe responder, deu um sorriso tão sereno que parecia sair do botão de uma rosa e não da boca de uma velha, que encontrei no fim do mundo. Não me perguntou mais nada, virou as costas e continuou o seu caminho, um pouco mais à frente, sem se virar, desejou-me boa viagem e bom regresso a casa, e que para seguir o meu caminho porque esse sempre nos leva aonde nos esperam. Como se isso fosse verdade pensei, então nós vamos onde queremos, onde desejamos, onde fosse preciso, raio da velha, os velhos sempre a dizer as coisas que estamos fartos de saber, como se de uma tese filosófica se tratasse. Aumentei o meu passo depois deste breve encontro, por algum motivo sem explicação não tinha gostado da velhinha, algo de estranho nela me dava um desconforto emocional, chegando até a dar-me um frio no estômago, precedido de um nó na goela, a sua voz, o brilho dos seus olhos, a suavidade do seu sorriso, pareciam vindos de uma criança, não de uma velha que mal se aguentava nas pernas, que raio de terra esta…
Continuei sempre a direito e sem olhar para trás, não fosse acontecer-me o mesmo que aconteceu à mulher de Ló quando fugiam de Sodoma e Gomorra que não resistiu a olhar para trás e transformou-se numa estátua de sal. Aumentava cada vez mais o meu passo, dava-me a sensação de estar um tapete rolante de um enorme aeroporto, andava e parecia não sair no mesmo sítio, até que uns metros mais à frente avistei um cruzamento, respirei de alívio, afinal progredia no caminho. Ao chegar logo me deparei com um pequeno problema, na breve explicação do caminho que o velho da pensão me fizera, não me recordo de alguma vez ter mencionado aquele cruzamento, lembro-me que dissera para seguir sempre a direito, e que seria fácil pois aquela era a única estrada até à próxima cidade. Que falta me fazia agora ali a velha que encontrara lá trás, pensei. A estrada parecia a língua de uma serpente, uma única que agora se dividia em duas, mas que raio, e agora? Ainda pensei em voltar para trás, talvez conseguisse apanhar a velha e perguntar-lhe o caminho certo, mas com isso perderia muito tempo, não tinha outra saída, teria de escolher uma. Costumam dizer que as estradas nos levam sempre a algum lugar, ora essa, então são as estradas que nos levam, ou será a nossa vontade?
Hoje quase meio cento de anos volvidos penso que foi a vontade que me levou e não a estrada, e quando conto esta história ninguém acredita nela, mas, a seu tempo, hão-de acreditar.
No fim da estrada havia uma cabana velha, feita de madeira, um pouco gasta, com telhas de barro envelhecidas pelo tempo, com musgo suficiente para fazer um presépio de qualquer família no natal, à esquerda um enorme carvalho, que pela sua aparência, seria testemunha da passagem de tantos homens e tempestades por aquelas bandas, e ele ali permanecia sereno e sublime como se pertencesse a outro mundo, à direita havia um pequeno curral, a prisão de três cabras, com umas tetas tão inchadas, que certamente rebentariam se umas mãos mais desajeitadas as ordenhassem. Parecia não estar por ali ninguém, raios me partam, teria de voltar para trás e já se fazia tarde, não conseguiria chegar á cidade antes de o anoitecer. Estava a fazer-me ao caminho de volta quando do nada surgiu uma voz a oferecer-me pousada, era um velhota que me oferecia pousada, mas que raio, será que só haveria velhas por aquelas bandas… Depois de umas breves palavras fui convencido a ficar, era perigoso fazer o caminho de noite, e se mesmo de dia me tivera enganado imagina de noite, e depois como poderia uma velha, mais velha que o carvalho, fazer-me algum mal. Fui convidado a entrar, a velha foi apanhar lenha para fazer o jantar, ainda me ofereci para ajudar mas esta recusou, antes ainda pediu-me que me instalasse à vontade. O interior da cabana estava a brilhar, tal o nível de limpeza, vista de dentro parecia dez vezes maior, tinha uma salinha, com uma lareira, em frente à lareira uma mesa posta, dois pratos, duas colheres, dois guardanapos, dois copos, dois pedaços de pão, que estranho, não tinha visto mais ninguém, talvez estivesse á espera do marido para jantar. Do lado direito uma cozinha que apesar de improvisada tinha muito bom aspecto, na parede em frente, duas portas, que davam para duas divisões da parte de trás da cabana, possivelmente os quartos, entre as duas portas estavam penduradas na parede duas molduras alinhadas exactamente iguais, com o aro dourado e vidro baço já um pouco gastas e sujas, até admira tudo tão limpinho, mas espera lá, na cozinha não havia fogão, não havia bules, canecas, pratos, tachos, facas, panos, nada, apenas e só uma panela velha completamente preta, tisnada do fogo, mais uma coisa que não batia certo, mas tantas culturas, tantos hábitos diferentes, e num ambiente de extrema pobreza, muito boa era a moradia, puxei uma cadeira e sentei-me em frente á lareira, ainda a pensar onde iria comer e sentar-me ao jantar…. Deixa aproveitar agora a cadeira e descansar as pernas antes que chegue o dono, que amanha a estrada estará à minha espera. Passado um quarto de hora estava ferrado no sono.
Acordei com um ligeiro toque no ombro, era a velhota, tinha voltado enquanto eu conferenciava com o meu amigo Morfeu e estava agora preparar o jantar, convidando-me se a queria acompanhar até ao exterior da cabana. Tinha acendido uma fogueira na rua, o lado do lume um montinho de lenha que serviria de combustível, e duas pedras que serviriam de cadeiras na ausência destas, mas a minha atenção centrava-se na panela em cima das chamas, com o manjar dos deuses no seu interior, estava esfomeado, parecera que tinha dormido um ano e não um quarto de hora… A noite estava linda, quente, o céu limpo, e lá bem no centro a lua cercada por estrelas, como se fosse um grande general rodeado pelos seus soldados, prontos a se lançarem sobre nós, num desenfreado ataque, enfim uma noite perfeita. A anciã mexia continuamente o conteúdo da panela, em movimentos contínuos e circulares, aos poucos ia adicionado o que parecia ser farinha, enquanto cantava muito baixinho o que parecia ser uma oração ou agradecimento… enfim devia estar a agradecer aos deuses pelo jantar, pensei. Quase nunca trocamos um palavra e as poucas perguntas que lhe fiz, ficaram sem resposta, parecia não me ouvir, e o pouco que falou foi para me roubar as palavras que eu próprio me preparava para dizer, parecia ler-me os pensamentos, apenas se dignou a responder quando lhe perguntei o que estava a preparar para o jantar, e de quem estava á espera para jantar, pois a mesa estava posta antes de eu chegar.
Num determinado momento levantou a cabeça e perguntou-me onde ficava a minha casa, antes mesmo de me dar tempo para responder, pediu-me para olhar para dentro da panela, mas que coisa estranha, o que estaria naquele tacho tisnado? Espalhava-se um aroma no ar, um cheiro adocicado, que me deixava um pouco zonzo, como quando o amigo Baco começa a apodera-se dos nossos sentidos, qual o meu espanto quando ao debruçar-me sobre a panela, me vejo num grande dilema, então e a comida? Nada, não havia nada dentro da panela, apenas o reflexo da lua… a velha cozinhava a lua para o nosso jantar… a velha cozinhava a lua… Mas como seria possível estar o reflexo da lua dentro da panela, e a ele juntar-se o meu reflexo, que por sua vez se sobrepunha ao da lua; mas eu não olhava para mim, mas sim para dentro de mim… sem lhe pedir a velha começou a responder a todas as perguntas que lhe fizera até então.
Lembras-te esta tarde quando passei por ti, e te disse para seguires o teu caminho pois ele sempre no nos levará, aonde nos esperam, pois bem eu tenho estado à tua espera. Meu deus era ela agora sim a reconheço, a mesma voz, o mesmo sorriso, o mesmo olhar, mas como podia ser possível, encontramo-nos em sentido contrário. Era por ti que eu estava à espera, por isso a mesa estava posta, as duas cadeiras, os talheres aos pares, os retratos pendurados na parede; os retratos, não estavam nenhuns retratos... dei um salto entro pela cabana adentro e num ápice encontrava-me em frente das molduras penduradas na parede entre as duas portas, mas como, como é possível, não podia ser verdade, só por modos de bruxaria ou magia… era o meu retrato que ali estava, e ao lado, o de uma mulher, de feições delicadas, lábios bem traçados, olhos castanhos da cor da terra, longos cabelos pretos, lisos e sedosos, emanava uma paz de espírito, ao mesmo tempo parecia hipnotizada pelo fotógrafo que lhe provocara uma cegueira momentânea ao disparar o flash da Polaroid, mas nem isso afastara o brilho dos seus olhos, tinha a sensação de conhecer aquele sorriso, parecia familiar, mas como poderia estar ali a minha fotografia? Como? Estava louco, um pesadelo, só poderia ser, não era possível, peguei na mochila, um pouco já em pânico, e saí dali o mais rápido possível, não me importei com nada, tinha de sair dali, nem me importava com mais nada… queria apenas fugir, tentar chegar à cidade, ou mesmo voltar para trás para a aldeia. Corri como o Belzebu foge da cruz, nem pensei mais na velha, que nem se moveu, nem me disse uma palavra ao ver-me sair daquela maneira, queria apenas sair dali, nunca mais queria ver aquela velha e aquela cabana amaldiçoada, o velho da pensão tinha razão, era uma terra amaldiçoada, aquele pesadelo tornara-se realidade. Mas não consegui, foi mais forte do que eu, quanto mais me afastava maior era o aperto que sentia no peito, um nó na garganta que me sufocava, e no estômago parecia ter borboletas a bater as asas no seu interior, sentia-me preso, como se num pavoroso pesadelo estivesse a tentar escapar do meu carrasco, que me lançava o derradeiro golpe, então assim sucumbi, eu olhei…olhei para trás, aquele simples olhar por cima do ombro transformou-me. Lá estava tudo igual, menos a velha, no lugar Dela estava uma rapariga linda de vestido branco, cabelos pretos lisos, era a rapariga da fotografia, que estava ao lado do meu retrato…Quando voltei a olhar em frente não era mais de noite, era já dia, e à minha frente corria um miudinho moreno, cabelos castanhos-escuros, pés descalços que correndo sempre sem olhar para trás ia dizendo… Não vale a pena correr, correr para quê? Queres apanhar o autocarro do destino? Olhe que o autocarro do destino não tem estação… Tu já estás dentro dele.
Aquele menino era eu.

Dário

Vai um Fiat 600?

Seguia a toda a velocidade, completamente fora de si, curvas e mais curvas, maldita ilha pensava, enquanto ao mesmo tempo desdobrava um velho mapa que mais parecia ser da época dos Romanos. Quanto mais olhava para o mapa, mais confuso e perdido se sentia, a noite começara a cair, o ponteiro da gasolina anunciava-lhe mais uma má noticia, o precioso líquido que fazia um velhinho Fiat 600 parecer um poderoso cavalinho vermelho, estava-se a acabar.
Se pudesse voltar a trás como tudo teria sido diferente, maldita a hora que conhecera as manas Antonella, que confusão meus deus, estava perdido, numa terra desconhecida, uma língua que não entendia, e só com 25,21€ no bolso, para não falar do Fiat 600. Só de pensar no fiat e no que lhe acontecera até lhe dava vontade de rir, mas os nervos e o medo impediam-no.
O Ezequiel tinha saído de uma terriola situada na Beira Baixa, com pouco mais de 400 euros o que seria suficiente para algum tempo, uma mochila cheia de roupa, e um pequeno caderninho de notas muito usado que o seu avô lhe oferecera quando era pequenito. Toda a vida usara esse caderninho, daí estar todo riscado e muito usado, era um objecto que o ligava ao avô, utilizava-o para anotar coisas importantes, como moradas, pensamentos, até alguns poemas que costumava inventar em noites de lua cheia, mas o mais importante, é que lá estava anotada a morada das manas Antonella, duas italianas da Sardenha que tinha conhecido na Internet.Decidira conhece-las, duas irmãs, estava apaixonado, uma delas até se despiu em frente ao computador, tinha de ir.
O plano era perfeito, iria de comboio até Lisboa, daí apanhava o avião para Barcelona, e depois era só ir de barco até á Sardenha. Assim fez e tudo corria ás mil maravilhas, estava excitadíssimo, até que tudo se alterou, quando ao chegar ao porto da Sardenha foi assaltado. Dois larápios meteram-lhe mão à mochila, enquanto despia o casaco e ao mesmo tempo comprava um mapa da ilha a um simpático velhote, numa loja junto ao cais. Ainda se meteu a correr atrás dos malandros, mas num piscar de olhos desapareceram, meus deus a carteira o dinheiro tudo desaparecera… Certamente as manas Antonella iriam ajudá-lo pensou, neste momento Ezequiel congelou, meu Deus o caderninho com o endereço estava também dentro da mochila. Estava metido num grande sarilho. Enquanto voltava a si, é com grande espanto que vê os larápios, um deles com a mochila ás costas, a fugir de dois polícias que os perseguiam de pistola em punho e já de língua de fora. Sem pensar no perigo põe-se a correr, atrás dos larápios, por umas ruas muito estreitinhas dobra uma esquina e outra e outra, e nisto vê-se metido numa grande confusão, de repente era perseguida com os ladroes da sua mochila e o pior, já não eram dois polícias mas sim o dobro. Ezequiel estava apavorado, sem saber o que fazer corria cada vez mais rápido, até que ao virar uma esquina depara com uma velhota que tirava uns saquinhos de compras do supermercado de dentro de um velho fiat 600.Motor ligado, porta aberta, polícias aos berros de pistola em punho, cheio de medo, numa terra estranha, o que acham?
Ezequiel de prego a fundo no fiat 600 da velha.

Dário