terça-feira, 31 de março de 2009

Se possuísse uma canoa e um papagaio, podia considerar-me realmente como um Robinson Crusoé, desamparado na sua ilha. Há, é verdade, em roda de mim uns quatro ou cinco milhões de seres humanos. Mas, que é isso? As pessoas que nos não interessam e que se não interessam por nós, são apenas uma outra forma da paisagem, um mero arvoredo um pouco mais agitado. São, verdadeiramente como as ondas do mar, que crescem e morrem, sem que se tornem diferenciáveis uma das outras, sem que nenhuma atraia mais particularmente a nossa simpatia enquanto rola, sem que nenhuma, ao desaparecer, nos deixe uma mais especial recordação. Ora estas ondas, com o seu tumulto, não faltavam decerto em torno do rochedo de Robinson - e ele continua a ser, nos colégios e conventos, o modelo lamentável e clássico da solidão.

Eça de Queirós, in 'Correspondência'

quarta-feira, 18 de março de 2009

Saudade

Uma carteira de fósforos, com dois fósforos e com uma bonita imagem numa das suas faces, segurada nas mãos de um homem alto que procura acender o seu cigarro, relembrando o tempo fantástico que passou. Do seu bolso direito tira uma écharpe de seda e umas moedas, ela dançava ao sabor do vento deixando o perfume da mulher que a usava ser transportado pelo ar. Este homem sentindo o aroma doce do perfume apertou os seus 61 dinares desejando não ter só este dinheiro para poder voltar para trás em busca da mulher que lhe roubou o coração. A única coisa que tinha era a linda écharpe com o doce perfume e a bonita recordação do tempo que passaram juntos.

terça-feira, 17 de março de 2009

Amor egoísta

As gotas da chuva misturam-se com as nossas lágrimas, a dor da partida com a alegria do reencontro. Um dia. Não sei se te voltarei a ver, nem sei como seria esse reencontro. Tenho saudade. Saudades das palavras apaixonadas que nunca te disse, das noites longas de amor e dor que nunca aconteceram, mas sobretudo tenho saudades de mim, daquela que era naquela vida. Amo-te, com um amor muito meu, muito egoista e privado, um amor que não partilho com ninguém, nem mesmo contigo. Sou escrava desse amor e sua dona, vivo com ele e para ele. É meu amante, amigo e companheiro. É com ele que partilho os melhores e piores momentos. É ele que me faz sorrir e é ele que me conforta quando choro.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Memórias

Ao ligar o carro naquela manhã fria de Fevereiro, Mário hesitava, a franja de um tom acastanhado caia-lhe suavemente sobre a testa, os olhos verdes levemente salpicados de castanho, piscavam aos primeiros raios de luz.

Com os olhos fixos no banco do lado, olhou pensativamente para o êcharpe bordeaux de seda. Pegou-lhe e sentiu o seu perfume, um leve aroma a maçãs verdes. Por baixo do êcharpe um guardanapo com o nome Martine e um nr. de telefone.

"Martine" esse nome que sem resultado tentou afastar do pensamento. Puxou de um cigarro e ao abrir a pequena carteira de fósforos vermelha, olhou para o logotipo "Bar Montenegro". Fora ali que a conhecera.

Acendeu o cigarro, gastando um dos dois últimos fósforos e arrancou.

Enquanto conduzia em direcção ao porto, recordou a cara angélica de Martine que ficara docemente dormindo na cama. Deixara-lhe uma carta, a única que alguma vez escrevera a uma mulher.

Aproximava-se agora do seu destino, a farda militar que ostentava anunciava o inevitável, o ínicio da guerra.

sexta-feira, 6 de março de 2009

A culpa é do Papel

Papel
papel com saber a fel, ou a mel,
timbrado, manteiga, ou vegetal,
com sabor a sal… ai papel, papel, mortalha ou de jornal
do tamanho de Portugal…
estás tão mal…


Sabes uma coisa que eu descobri? O quê, não me digas que descobriste que a terra é redonda? Ahahah, nada disso, mas já que o referes nunca me tinha apercebido desse facto… a sério, é mesmo redonda?!

Ontem estava eu na casa de banho, a pensar na vida, de papel na mão… e eis que coloco os meus olhos naquele singelo e macio papelinho, e de súbito apercebo-me de tudo o que está mal no mundo…que triste destino têm as coisas suaves, macias e singelas nas mãos de um homem. Sim, até aí tudo bem…mas aonde queres chegar?

O papel é a coisa mais triste que há no mundo, é um objecto desgraçado desde a nascença, muito desgostoso, muito usado e cansado. Mas que conversa é essa?
Ele é a desgraça dos homens. Mas estás a falar do papel dinheiro ou papel, papel?
Ouve lá, sem bilhete não entras no cinema, e o bilhete é feito do quê? De papel! estás a ver? Sim, mas daí até ser a desgraça do homem, ainda vai muito.

Sem papel de condução és multado, e recebes em troca um papel verdinho em forma de multa. Ora, mas não faz sentido o que estás a dizer, então o papel não teve culpa, o culpado foste tu… ora essa.

O PAPEL persegue-me desde que nasci, assim que me tiraram da barriga da minha mãe, mal me deixaram respirar e já a enfermeira estava a pendurar-me num tornozelo, uma etiqueta com os meus dados, ainda assim não deixasse de ser gente, ou me confundissem com outro qualquer desgraçado acabado de nascer, meio zarolho, mais morto que vivo, já andava com um papel atado a um pé.

Quem não se lembra da cédula e do registo, ai o registo, belos anos oitenta, quando eclodiram em força as novelas brasileiras e de repente, deixamos de ser todos Manuel, António, José, Joaquim, Maria, Alzira, Antónia… e começamos a ter nomes maravilhosos como Roberto, Dércio ,Ruben, Marcos, Patrícia, Gabriela, etc.… nomes novos em papel velho…

Parece-me que os únicos anos em que vivemos descansados desse infernal ser, que se mascara de várias cores e formas como o Demo, foram os que passámos até entrar no infantário; até aí éramos basicamente uma máquina devoradora de leite e batatas feitas em puré, sopas e afins, talvez por isso agora custe tanto comer sopa, se tivessem dado bifes a um gajo agora só se comia sopa ahahaha, mas adiante, o papel. Malditas professoras, fazerem uma criancinha cortar papel com uma tesoura maior que ele, até os dedos ficarem vermelhos e inchados, dobrar e colar papel, picotar papel, gatafunhar papel, rasgar, pintar etc.…

O grande dia é mágico, esse sim, quando vamos fazer o Papel de identidade… aí passamos finalmente a sentirmo-nos como parte da sociedade. Sem esse papelinho basicamente não existimos.

Deixa-te dessas ideias parvas, mas és doido ou quê, se não existisse papel, o que seria de nós, faríamos como os antigos, teríamos de escrever em pedras, já imaginaste, andares com a pasta cheia de pedras? Olha as pedras, isso sim era de valor, escrevias nelas e se te chateasses com alguém ainda lhas atiravas à cabeça, então vê lá que até metem pedras escritas em museus, e param a construção de barragens e grandes obras por causa de pedras escritas.

O Homem apoderou-se do mundo através do papel, olha os europeus quando chegaram à América, fizeram um mapa, umas escrituras, no fundo dividiram a terra entre eles, e os índios como não tinham feito a escritura do terreno, nem sabiam ler, ficaram sem nada. Isto para não falar das mentiras que se escreve no papel. As grandes mentiras da humanidade, tudo documentado em papel, essas teses filosóficas, esses grandes poetas e escritores que não fazem mais nada que não seja repetirem-se e copiarem-se mutuamente, esses jornais, esses romances...olha a bíblia, num dos dez mandamentos Deus disse para não matar, mesmo assim o povo de Israel e do Senhor andava sempre a matar-se. Desgraçado papel que aceita tudo, olha o Alcorão!!! Opa fala mas é baixo, não te metas com os árabes… que eles é que tem o papel…

Um gajo vai parar à cadeia por causa de um papel, pode ser uma grande mentira e falsidade, mas se tiver assinado por ti, e documentado em papel, ‘tás lixado, a mentira passa a ser verdade, daí até ser prova é um ápice e ‘tás encravado.

Olha o meu avô, que ficou pobre, por causa de um papel, filho bastardo, o pai morreu sem deixar Papel, o tal testamento… ficou sem nada… que miséria ou então foi o cupim que o comeu, o papel nem consegue resistir a um bicho que mal se vê ao microscópio.

Então e quando estás cinco horas na fila da segurança social, chega a tua vez, e a menina que te atende com uma cara de quem está grávida de dois meses, e te vê como se de um prato de batatas de cozinha te tratasses, lentamente te pergunta: Então e o senhor trouxe o papelinho preenchido? Não. Então tem de ir para o fim da fila ou então voltar amanhã com o papelinho preenchido, e aí um gajo passa-se, filho da mãe, raios parta o papel.

Olha esta merda de crise, tudo por causa do papel, esse maldito papel, dinheiro, sujo e imundo, até consegue comprar a alma, as acções esses negócios obscuros, essa treta da bolsa… tudo gira à volta do papel; espera aí, estou um pouco constipado, por acaso tens um lenço de papel, para limpar o nariz?

Sabes da melhor, quando morreres vou dedicar-te um poema lamechas como tu, escrito em papel, claro, olá e não me posso esquecer de pedir a certidão de óbito, só com esse papel posso provar que morreste, ainda és dado como desaparecido ou assim… nem deixam um gajo morrer descansado, vai o morto a caminho do paraíso, a pensar, se por algum acaso os filhos não se esqueceram de lhe fazer o passaporte para a paz.

O papel é tão miserável, que depois de ter pensado isto tudo ainda lhe limpei o cú, amarrotei-o, viu-o desaparecer sanita abaixo, e nem um ai se ouviu, nem uma reclamação, nem um queixume, uma revolta, nada, nada, nada, olha o que me parece é que andamos demasiado a pensar no papel, e deixamos que nos façam o mesmo que se faz ao papel higiénico, e no final esquecemo-nos de qual é o nosso verdadeiro papel.

Dário

quinta-feira, 5 de março de 2009

Quase

Ainda pior que a convicção do não, a incerteza do talvez, é a desilusão de um "quase". É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.” Luís Fernando Veríssimo

QUASE
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas oportunidades que se perdem por medo, nas ideias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no Outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza. O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Para os erros há perdão; para os fracassos, oportunidade; para os amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não se deve deixar que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Deve-se desconfiar do destino e acreditar mais em nós. Gastar mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.